9 Gratidão
O garçom conduziu Fu Yingcheng até o interior do restaurante, perguntou quantas pessoas iriam jantar, levou-o a uma mesa para dois e lhe entregou o cardápio: “O senhor pode dar uma olhada no menu. Quando quiser pedir, é só me chamar.”
Fu Yingcheng assentiu, ergueu as pálpebras e percebeu que a garota ainda permanecia à entrada, olhando ao redor. Com um gesto, tocou a mesa: “O que foi? Você quer que nos sentemos em mesas separadas?”
“Eu estava pensando… talvez fosse melhor sentar perto da vitrine…” Ji Fanling espiou em direção à cozinha, buscando a figura de tia Jiang.
A cozinha do Jiang’s Small Noodles era aberta, separada do salão por uma ampla parede de vidro, permitindo aos clientes observar o preparo dos pratos. Lá dentro, alguns mestres, com chapéus brancos de chef, estavam concentrados cortando legumes e sovando a massa.
Fu Yingcheng, com uma mão segurando o casaco, levantou-se.
“Deixa pra lá, deixa pra lá,” Ji Fanling mudou de ideia, “vamos ficar aqui mesmo.”
Fu Yingcheng lançou-lhe um olhar frio.
Ji Fanling explicou em voz baixa: “Acho que conheço a dona daqui, pois costumava vir muito aqui, mas naquela época o restaurante ficava na rua de comidas da escola… Você sabe?”
“O que acha?” Fu Yingcheng não respondeu diretamente.
Ji Fanling interrompeu a conversa ao ver uma mulher na cozinha virar-se e conversar com um dos chefs.
A mulher tinha sobrancelhas finas e rosto oval de pele clara, visivelmente bem cuidada; dez anos haviam passado sem lhe marcar o semblante, permanecia viçosa e com ar vigoroso, até um pouco mais cheia.
“Aquela é a tia Jiang,” murmurou Ji Fanling.
O homem baixou o olhar; a garota, dividida entre observar a tia Jiang e falar com ele, inclinava-se sobre a mesa, ficando muito próxima.
Os cílios, bem definidos, projetavam sombra sobre o rosto pálido. A respiração era sutil, quase inaudível.
Parecia que ela lhe confidenciava segredos.
Fu Yingcheng recolheu o olhar: “Pretende ir à cozinha vê-la?”
“Oh, melhor não,” Ji Fanling recordou lentamente as frases dos noticiários de antigamente: “sacrifício em nome da justiça”, “salvou um menino de sete anos”, “os pais do menino procuraram o benfeitor sem sucesso”.
Imaginou-se sendo perseguida pela família de tia Jiang em agradecimentos sem fim.
Aquela cena… assustava.
“Já viu aqueles filmes de ficção científica? O protagonista, dotado de poderes, acaba capturado por cientistas loucos e submetido a experimentos terríveis…”
Ji Fanling modulou o tom: “Por isso, o fato de eu ainda estar viva… Só quem é realmente próximo de mim deve saber, o resto, melhor não.”
O homem arqueou ligeiramente as sobrancelhas.
Só então Ji Fanling percebeu.
No “quem é realmente próximo”, incluíra Fu Yingcheng.
“Exceto você, isso foi um acidente.”
Ji Fanling remendou devagar: “Você descobriu sozinho, não fui eu quem contou.”
Fu Yingcheng fitou-a intensamente.
Por fim, puxou um sorriso de canto de lábios: “Era melhor não ter explicado.”
Ji Fanling pegou o menu, folheando-o distraída.
… Na verdade, preferia ver o Pequeno Xingxing, mas ele provavelmente não estava ali.
Quando baixou os olhos, um adolescente alto e esguio entrou correndo pela porta, vestindo um casaco esportivo azul aberto, atravessando confiante o caminho até o corredor dos funcionários.
Ele passou ao lado de Ji Fanling, quase roçando-a, mas ela nem ergueu o olhar; Fu Yingcheng, entretanto, lançou um olhar de soslaio.
Pouco depois, o jovem saiu da cozinha, vestindo avental, trazendo duas tigelas de macarrão e alguns acompanhamentos, que entregou a uma mesa distante, saudando com um sorriso: “Faz tempo que não vejo vocês.”
Aquela mesa era de clientes habituais: “Bo Xing, veio ajudar a família de novo?”
“Sim, é domingo, terminei os deveres e vim ajudar.”
“Está em que série? Estuda muito?”
“Segundo ano do ensino médio. Trabalho físico ajuda a descansar a mente,” respondeu o jovem com voz clara.
Um dos clientes apresentou-o ao outro: “Este é o filho da dona, estuda na Beiyuan No. 1, ótimo aluno, candidato a Qingbei.”
Ji Fanling: “…”
A garota ficou imóvel por um instante, espiou rapidamente como um esquilo, e seus olhos se abriram em espanto.
Pequeno Xingxing!
Como cresceu!
Ji Fanling sentou-se de novo, baixando a voz: “Viu aquele do segundo ano? Quando o conheci, ele mal chegava à minha coxa.” Ela fez um gesto para indicar.
Fu Yingcheng: “Então aos sete anos era um anão?”
“…”
Ji Fanling não resistiu a lhe lançar um olhar zangado.
Mas estava tão feliz que seu sorriso era inofensivo.
Jiang Boxing trocou mais algumas palavras com os clientes, notou Ji Fanling e Fu Yingcheng olhando o menu, e aproximou-se, animado: “Já decidiram o que vão pedir?”
Ji Fanling escondeu o rosto atrás do menu, quando ouviu o jovem elevar a voz, surpreso e radiante: “… Senhor Fu?!”
Ji Fanling: “???”
O rosto limpo e delicado do jovem corou de emoção: “Senhor Fu, por que não avisou que viria? Minha mãe sabe? Vou contar pra ela!” E saiu apressado.
Fu Yingcheng: “Não é necessário.”
“Oh, claro.” Jiang Boxing girou nos calcanhares, mantendo a animação: “Senhor Fu, experimente nosso noodle família, ou o noodle com gema de caranguejo, edição de outono, também é delicioso.”
Fu Yingcheng não respondeu, voltou-se para Ji Fanling: “Já decidiu?”
A garota abaixou lentamente o menu, revelando apenas os olhos, que vagavam entre eles: “Vocês… como se conhecem?”
Só então Jiang Boxing percebeu a garota sentada diante de Fu Yingcheng.
Ela era magra, quase translúcida, com cabelos caindo sobre a testa, e uma postura indolente e ligeiramente hostil.
Jiang Boxing tratou a amiga do senhor Fu com máximo respeito, mantendo-se ereto, respondendo com dignidade: “Após terminar o ensino fundamental, minha família passou por dificuldades, e o senhor Fu me ajudou a estudar no ensino médio. Este restaurante também é dele, minha família apenas aluga…”
Fu Yingcheng ergueu as pálpebras, o olhar glacial: “Conta a todos, por que não pendura uma faixa na porta?” O tom, de reprovação.
Jiang Boxing interrompeu, constrangido: “Enfim, o senhor Fu me ajudou…”
Na época, Beiyuan buscava o título de cidade civilizada, e os órgãos reguladores faziam inspeções rigorosas. Descobriram que a licença do restaurante estava vencida, puniram por operação sem permissão.
A loja foi obrigada a fechar, o contrato de aluguel da casa expirou, o proprietário dobrou o valor do aluguel.
Como se não bastasse, o pai de Jiang Boxing foi diagnosticado com insuficiência renal, e a família se viu com dívidas de dezenas de milhares de yuan, sem saída.
Fu Yingcheng, então, foi providencial.
Pagou as despesas médicas do pai, financiou os estudos, alugou-lhes o ponto comercial em localização privilegiada por preço módico, e até investiu o capital inicial.
A família Jiang era grata, preparou presentes para agradecer ao senhor Fu.
Jiang Boxing foi à empresa de Fu Yingcheng, pediu informações, esperou duas horas na porta da sala de reuniões, até finalmente vê-lo.
Na época, Fu Yingcheng tinha apenas vinte e cinco anos.
O jovem CEO, de terno impecável, alto e elegante, emanava um ar cortante de beleza austera, avançava com passos largos, seguido por uma comitiva de colaboradores.
Jiang Boxing apressou-se: “Senhor Fu!”
Fu Yingcheng interrompeu as instruções ao secretário, olhou-o com sobrancelhas franzidas: “Está me procurando?”
Jiang Boxing apresentou o cesto de flores com cartão: “Sou Jiang Boxing, o jovem que o senhor patrocinou.”
No olhar de Fu Yingcheng brilhou um instante de desprezo: “Quem permitiu que você subisse?”
“Expliquei à recepcionista, ela me deixou entrar.”
Jiang Boxing ainda estava radiante: “Meu pai está melhor, em setembro também entrarei na Beiyuan No. 1. Só queria agradecer…”
“Não é necessário, não preciso do seu agradecimento.” Fu Yingcheng cortou friamente, virando-se para sair, e deixou apenas uma frase gélida:
“— Evite aparecer diante de mim.”
Os outros o seguiram, e o garoto de quinze anos ficou parado, abraçando o cesto, com expressão desanimada.
Ele podia sentir que o senhor Fu não gostava dele.
Talvez até o detestasse.
Mas quem ajudaria alguém que detesta?
…
Talvez fosse só imaginação.
*
Após ouvir Jiang Boxing, Ji Fanling assentiu.
Jamais esperaria que Fu Yingcheng tivesse tal ligação com Jiang Boxing.
— Por isso ele a trouxe para jantar ali.
A garota ergueu os olhos, observando Jiang Boxing.
Quando criança, era como um pãozinho macio, com olhos e nariz juntos; agora, os traços se estenderam, limpos e vigorosos, de uma beleza delicada.
Que bom.
O coração de Ji Fanling foi tomado por uma tristeza doce, e ela tocou o nariz, desconcertada, perguntando: “Qual sua altura agora?”
Jiang Boxing: “Um metro e oitenta e dois.”
Ji Fanling: “E os estudos?”
Jiang Boxing respondeu, confuso: “Na última prova final fui o melhor da turma.”
“Está ótimo, continue assim.” Ji Fanling assentiu.
Jiang Boxing: “…”
Seria impressão?
O olhar da garota tinha algo de ternura adulta.
Ji Fanling voltou ao menu.
Antes, o cardápio do Jiang’s Small Noodles tinha sete ou oito itens, plastificado em papel A4 colado à janela; agora, era ilustrado, várias páginas, o noodle com gema de caranguejo custando 88.
Que progresso.
Ji Fanling notou, surpresa, o final do menu: “O noodle simples ainda… custa só três yuan?”
Naquela época também custava três, mas agora, com o restaurante em área privilegiada e grande, vender por esse preço era prejuízo.
“Minha mãe disse que nosso noodle simples jamais aumentará de preço.” Jiang Boxing explicou.
Por algum motivo, Ji Fanling sentiu o nariz arder.
Ela largou o menu: “Então quero um noodle simples…”
“Um noodle família e um noodle com gema de caranguejo.” Fu Yingcheng entregou o menu a Jiang Boxing.
“Certo!” Jiang Boxing respondeu prontamente.
Ji Fanling: “?”
Ji Fanling: “Não era eu quem ia pedir?”
Fu Yingcheng: “Você demora demais.”
“Espere, Pequeno Xingxing,” chamou a garota.
O chamado cristalino pareceu atravessar o tempo, trazendo uma sensação inquietante de familiaridade, como um raio atingindo os ouvidos do jovem.
Jiang Boxing parou abruptamente.
“— Não coloque amendoim no noodle, se tiver.” Ela apoiou o queixo e o olhou.
“Certo.”
Jiang Boxing hesitou: “Como sabe meu apelido?”
Como eu sei…
Não é assim que todos o chamam?
Ji Fanling ergueu o queixo para Fu Yingcheng, tranquila: “Foi ele quem me disse.”
Fu Yingcheng: “…”
O homem lançou-lhe um olhar silencioso, concordando.
Ele tinha uma aura incontestável; o jovem não ousou perguntar mais: “Ah, foi o senhor Fu mesmo quem falou, faz sentido…” Mas a voz foi ficando mais lenta.
Ele já não era mais criança.
Seu apelido, exceto pela mãe, ninguém o chamava assim há sete ou oito anos, nem o senhor Fu deveria saber.
O jovem andou mais alguns passos, e olhou de novo para a garota, nos olhos um traço de confusão.
…
Como se buscasse, com esforço, o rosto perdido nas memórias.
*
Cozinha.
Jiang Boxing puxou a mãe para o lado, contou que Fu Yingcheng estava ali, mas não queria chamar atenção.
A mãe assentiu, avisou ao chef, e ela mesma preparou os noodles que Fu Yingcheng pediu.
Jiang Boxing lavou as mãos, foi ajudar, e perguntou: “Mãe, lembra como era a irmã? Eu lembro de uma pequena pinta no lóbulo da orelha dela.”
A única pessoa que Jiang Boxing chamou de “irmã” sempre fora uma só.
A mãe parou de amassar a massa: “Você era pequeno, como pode lembrar? Sonhou com ela de novo?”
“Não foi sonho, tenho boa memória. Você lembra?”
“Não lembro detalhes.”
Jiang Boxing descascava a gema de caranguejo, mas não resistiu a olhar, através da vitrine, para a garota sentada longe: “A irmã sempre pedia sem amendoim, será que não gostava?”
“Ela tem alergia a amendoim.” A mãe respondeu, olhando-o com estranheza:
“Por que está falando tanto nela hoje? Ela te mandou algum recado? Quando fecharmos, vamos queimar um pouco de papel para ela…”
“Certo.”
A mãe limpou o suor da testa, continuando a amassar a massa, murmurando: “Ela sempre pedia noodle simples, nunca experimentou algo bom aqui, naquele dia, a tigela ficou intacta…”
A voz, impregnada de culpa, mal audível.
“… Lá do outro lado, ela precisa comer bem.”
*
“Hic!”
Ji Fanling engoliu a última colherada de gema de caranguejo dourada, não conseguindo evitar um arroto satisfeito.
A massa feita pela mãe de Jiang, pessoalmente para Fu Yingcheng, vinha com acompanhamentos abundantes, uma montanha de ingredientes, e três fêmeas de caranguejo descascadas.
Seu estômago, acostumado à fome, nunca recebera tal iguaria, o sabor era tão intenso que a deixou tonta.
“Se está satisfeita, pare de comer.”
Fu Yingcheng moveu os cílios, vendo que ela esvaziara a tigela em cinco minutos: “Eu nunca te deixei passar fome?”
Ji Fanling limpou a boca devagar: “Não importa, comer devagar não é vergonhoso, posso esperar por você.”
Quando Fu Yingcheng terminou, Jiang Boxing veio se despedir, recusando-se a aceitar dinheiro.
Fu Yingcheng não se preocupou em ser educado com coisas pequenas, vestiu o casaco e preparou-se para sair.
Jiang Boxing apressou-se: “Senhor Fu, como foi a experiência? Alguma sugestão de melhoria?”
Fu Yingcheng: “Nenhuma.”
“Esta é a nossa cartão de membro, com ela o senhor tem descontos e acumula pontos.” Jiang Boxing entregou o cartão a Ji Fanling.
Ji Fanling, pensando no noodle simples de três yuan, aceitou e guardou no bolso.
“Aliás, você pediu sem amendoim porque acha que não combina com noodles?” Jiang Boxing perguntou, casual.
“Não é isso.”
Ji Fanling afastou os fios de cabelo, revelando a pequena pinta no lóbulo da orelha.
“— Sou alérgica a amendoim.”