Capítulo 8: Negociando com o Tigre pela Sua Pele
Natasha fitava o olhar sobre o jovem chinês à sua frente; embora o sorriso em seu rosto parecesse afável, em seu íntimo reinava a mais profunda antipatia.
De fato, ela nunca nutrira grande apreço pelos chineses.
Se não precisasse usar a boca daquele homem para espalhar que seu marido, Carnegie, sucumbira a uma doença, já teria dado um jeito de se livrar dele sem remorso.
Pensara, a princípio, em dar-lhe uma pequena recompensa, apenas o suficiente para afastá-lo, e depois mandar matá-lo no caminho, simulando um assalto seguido de morte.
Ninguém se importaria, afinal, se a morte do chinês fora mesmo por latrocínio ou não.
Entretanto, após quase meio mês hospedado na propriedade dos Carnegie, era inevitável que o chinês deixasse rastros. Se não saísse da mansão, acabaria oferecendo uma oportunidade de ouro para aqueles que cobiçavam os bens da família.
Mas o que ela jamais esperava era que, logo de início, aquele chinês ousasse exigir não só a ela, mas também toda a herança dos Carnegie.
Era, sem dúvida, um devaneio insano.
— Senhor Su, não lhe parece que seu apetite é… excessivo? — Natasha conteve, com esforço, a aversão que sentia e continuou: — Ambição em demasia nunca traz bons augúrios. Meu marido, por ser demasiado ambicioso, já foi prestar contas a Deus.
Su Yu balançou a cabeça.
— Não considero excessivo e, além do mais, aprecio desafios, senhora Natasha. Se não me engano, assim que eu sair deste aposento, ou mesmo puser os pés fora da casa, serei morto por alguém.
Sendo assim, por que não desafiar o perigo de frente? Sou um homem que gosta de desafios.
Agora que havia se visto, sem querer, envolvido em um caso de homicídio, sair ileso dali era impossível.
E Natasha tampouco lhe permitiria partir levando qualquer recompensa; era bem provável que, ao cruzar a soleira da porta, fosse alvejado, acusado de roubo e morto sem direito a defesa.
Só um morto guarda segredos; ainda que suas palavras fossem persuasivas como flores de lótus, Natasha jamais o deixaria escapar.
Já que a morte era certa, por que não tentar uma cartada ousada?
Além do mais, as posses de Natasha eram muito maiores do que as de Lorena; se conseguisse assumir a casa Carnegie, nem mesmo o chefe de polícia Sassoon ou a família Barry ousariam enfrentá-lo.
Por mais insano que soasse, não era impossível.
Ergueu-se, aproximou-se de Natasha e, com a mão, ergueu-lhe o queixo, fitando-a de cima, olhos nos olhos:
— Além disso, posso ajudá-la a unificar Lonely Pine Town.
— Senhor Su, bravatas todos sabem dizer — Natasha manteve o sorriso. — Por que eu deveria crer que um chinês isolado e sem poder teria condições de cumprir tais promessas?
— É verdade, bravatas todos sabem dizer — Su Yu soltou-lhe o queixo, sorrindo também. — Mas, por ora, o senhor Carnegie ainda está aqui. Não deveríamos, antes, resolver esse assunto?
Natasha assentiu:
— De fato, senhor Su, você está correto. Precisamos, antes de tudo, cuidar do caso do meu marido. Suponho que saiba o que fazer.
— Só temo que tente me trair pelas costas, ou vá divulgar que fui eu quem matou o senhor Carnegie — Su Yu sorriu. — Não sou como a senhora, Natasha, que tem duas caras; se me caluniar, nem sequer terei chance de defesa.
Que chinês odioso!
Imaginava que poderia manipular facilmente aquele chinês, mas percebeu que ele era ainda mais difícil de lidar do que supunha.
De fato, ela poderia simplesmente anunciar ao mundo que fora ele o assassino de seu marido.
Mas, naquela noite, para lidar com o esposo, já havia dispensado todos os criados; mesmo que gritasse, dificilmente alguém ouviria.
E, se por acaso algum servo viesse, talvez já a encontrasse morta pelas mãos daquele homem.
Percebia agora que se deixara enganar por preconceitos: acreditara que os chineses eram todos submissos, incapazes de reagir.
Mas quem poderia imaginar tamanha rebeldia?
Doravante, se alguém ousasse dizer-lhe que chineses eram fáceis de manipular, ela própria mataria o infeliz com uma flecha envenenada.
— E então, senhor Su, o que propõe? — Natasha esforçou-se para manter a calma.
Su Yu retirou uma faca e a encostou no pescoço de Natasha:
— Já disse: quero você e a herança dos Carnegie. Redija agora mesmo um documento declarando-me seu legítimo esposo, com iguais direitos sobre os bens da família.
— E se eu me recusar? — Os olhos de Natasha se tornaram duas lâminas.
— Então, primeiro violarei você, depois a matarei. Acredite: se eu quiser fugir da casa Carnegie, ninguém conseguirá me deter; mas, antes, a despirei e pendurarei nua na praça principal de Lonely Pine Town.
O sorriso de Su Yu era radiante como o sol.
— Imagino que esse seja um destino que a senhora Natasha não suportaria. Eu, no máximo, serei um criminoso; mas sua reputação será destruída para sempre nesta cidade.
Natasha calculava mil possibilidades. Não ousava apostar, pois perder era morrer — e não podia garantir que o chinês não cumpriria a ameaça.
Se ele realmente a matasse e fugisse, no máximo a polícia federal vingaria sua morte.
Mas ela não voltaria à vida.
Após quase um minuto de silêncio, tomou sua decisão: mesmo que redigisse o documento, o chinês talvez nunca controlasse os Carnegie.
Ela ainda poderia, em segredo, procurar uma oportunidade para matá-lo.
Ceder, por ora, para preservar a própria vida, não era má ideia. E, como a casa Carnegie já estava infiltrada pelos homens do marido, por que não usar o chinês para eliminá-los?
Deixaria que se digladiassem, observando de longe, e, ao final, expulsaria todos os interesseiros com mínimo custo.
Uma vez livres, poderia então se livrar do chinês também.
— Querido, admito que você tem razão — Natasha sorriu com doçura. — Você me curou; se deseja desposar-me, que assim seja — desde que não se importe de ter uma mulher já casada.
— Como poderia? — Su Yu sorriu também. — Gosto de frutos maduros como você.
O acordo foi selado: primeiro, encontraram um quarto onde depositaram o cadáver de William Carnegie, trancando a porta.
O sobrenome de William, na verdade, não era Carnegie; só o adotara depois de casar-se com Natasha.
Nesses tempos, não eram muitos os homens que adotavam o nome da esposa, mas não era inédito; ao fazê-lo, era como se casassem de novo, mudando de identidade.
Foram ao escritório, onde Natasha redigiu um documento declarando que William falecera de doença súbita, e que ela e Su Yu se amavam, gozando de iguais direitos na casa Carnegie, a quem todos deveriam obedecer.
Na prática, o documento não tinha valor legal algum, nem garantia que Su Yu controlaria a família.
Por isso Natasha o redigiu tão prontamente.
Su Yu também sabia que aquele papel não o protegia; Natasha poderia matá-lo a qualquer momento, sem margem para negociação.
Mas fortuna e risco andam juntos.
Se deixasse a mansão, Natasha poderia imediatamente acusá-lo do assassinato de William.
Guardando o documento, Su Yu disse:
— Querida, vamos ao que interessa: mesmo que deseje minha morte amanhã, esta noite não quero desperdiçar.
— Malvado… — Natasha fez-se de envergonhada.
Quem a visse acreditaria tratar-se de uma mulher virtuosa, mas, na realidade, era de uma astúcia implacável.
Su Yu ergueu-lhe o queixo com um dedo.
— Natasha, não imaginei que se jogaria de tal forma nos meus braços, mas verá como vai gostar do meu ímpeto…
Após um ardoroso e arriscado enlace, a alma de Natasha parecia ter se elevado.
— Não nego que és um jovem de grande talento — disse Natasha —, mas isso não significa que poderá controlar toda a casa Carnegie, pois William deixou muitos aliados fiéis.
— Lembra-se do que lhe disse? Gosto de desafios. Vou abrir novas portas para você. — Su Yu alongou o corpo. — Logo conhecerá, através do kung fu chinês, o verdadeiro significado de varrer todos os obstáculos…
Na manhã seguinte, Su Yu estava revigorado e procurou o mordomo negro.
— Fitch, reúna todos aqui. E informe aos empregados que o senhor Carnegie, infelizmente, nos deixou ontem à noite, vítima de uma doença.
Os olhos de Fitch se estreitaram, desconfiados:
— Lembro que ontem o senhor Carnegie estava muito bem.
Natasha, radiante, aproximou-se de Su Yu:
— Faça como Su ordenou.
— Sim, senhora…